quinta-feira, 20 de maio de 2010

Profissionais Verdes



Fonte:http://carreiras.empregos.com.br/carreira/administracao/noticias/profissoes-verdes.shtm?&utm_source=EMP_BOL&utm_medium=BOL_CARR&utm_content=BOL_CARR_2_19052010&utm_campaign=BOL_CARR_2_19052010


Utilizar o mesmo copo descartável ou adotar o squeeze. Usar os dois lados do papel sulfite para impressão ou transformar as folhas que não serão mais úteis em papel para rascunho. Apagar a luz da sala quando ninguém estiver nela. Ações simples que num esforço conjunto podem beneficiar a empresa e o meio ambiente. Características do profissional verde que, longe de ser mais um modismo ou uma tentativa de fazer autopromoção, são atributos valorizados e cada vez mais exigidos pelas organizações.

Mas os profissionais verdes ou orientados ao desenvolvimento sustentável ainda são uma raridade, reclamam consultores e especialistas em sustentabilidade. “Precisamos agir nas escolas e universidades para transmitir esses valores o mais cedo possível”, diz Sonia Chapman, diretora presidente da Fundação Espaço Eco.

Profissionais que têm consciência do papel sustentável no trabalho e na sociedade, portanto, estão um passo a frente, principalmente nas empresas que já mencionam em seus valores e sua missão o conceito de sustentabilidade e aplicam o discurso por meio de ações sustentáveis.

Engana-se quem ainda pensa que a ação sustentável deve estar direcionada aos profissionais das áreas ambiental, biológicas ou afins. “Sustentabilidade também engloba ações de responsabilidade social, estratégia financeira, comunicação social, governança corporativa e o relacionamento com as partes interessadas”, explica Christie Bechara, consultora e especialista em sustentabilidade pela Fundação Getúlio Vargas.

Conscientizada da importância do tema a categoria das secretárias, em São Paulo, vai lançar no próximo dia 22 a campanha“Ecoeficiência e Secretariado”, cuja proposta é promover o conceito de ecoeficiência na função da secretária para que os profissionais da área possam multiplicar a ideia e aplicá-la nas organizações.

“O secretariado também é um agente de mudança, por isso deve estimular e incentivar as empresas a tornarem-se mais sustentáveis, com a adoção de medidas simples que gerem resultados”, afirma Isabel Cristina Baptista, presidente do Sindicato das Secretárias do Estado de São Paulo.

Perfil
Na visão de Sonia Chapman, profissionais verdes ou orientados à sustentabilidade devem ser capazes de dialogar ou articular-se com os diversos públicos, tanto interno como externo. Devem ainda ter visão macro da empresa e considerar os impactos de suas ações.

“Um profissional assim tem de buscar ferramentas que orientem sua tomada de decisão considerando os fatores ambientais, econômicos e sociais”, diz.

Segundo a consultora Christie Bechara, o profissional sustentável deve definir suas tarefas de acordo com o contexto sócio-organizacional de forma a intensificar e a conduzir a longevidade do negócio. “Deve ser alguém que esteja apto a realizar tarefas definidas, mas inovadoras, e ainda colaborar para ações estratégicas, impactantes, transformadoras e alinhadas ao coletivo”, explica.

Por apresentar características até pouco tempo ignoradas pelas empresas, o profissional verde pode passar despercebido em organizações que ainda não se deram conta da importância das ações sustentáveis no ambiente de trabalho.

“Na maioria dos casos, é preciso atrever-se e infiltrar-se nas empresas para apresentar seu perfil profissional. As organizações que já têm seus negócios muito bem traçados e direcionados ao olhar do desenvolvimento sustentável, porém, oferecem boas oportunidades”, diz Christie.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Uma Saudade



Autor:José Antônio Oliveira de Resende
Professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João del-Rei. Minas Gerais "Sou do tempo em que ainda se faziam visitas".

Uma saudade !


Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.

Ninguém avisava nada, o costume era chegar de pára-quedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.
- Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.
E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.
- Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!

A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando- nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro... casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.

Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha - geralmente uma das filhas - e dizia:
- Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.

Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite... tudo sobre a mesa.

Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança... Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam.... era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade...

Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida.

Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa.. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos... até que sumissem no horizonte da noite.

O tempo passou e me formei em solidão.

Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail... Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:
- Vamos marcar uma saída!... - ninguém quer entrar mais.

Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.

Casas trancadas. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite...

Que saudade do compadre e da comadre!

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Justiça social-Justiça ecológica





Fonte:http://www.leonardoboff.com/site/lboff.htm


Justiça social-Justiça ecológica

Entre os muitos problemas que assolam a humanidade, dois são de especial gravidade: a injustiça social e a injustiça ecológica. Ambos devem ser enfrentados conjuntamente se quisermos pôr em rota segura a humanidade e o planeta Terra.

A injustiça social é coisa antiga, derivada do modelo econômico que, além de depredar a natureza, gera mais pobreza que pode gerenciar e superar. Ele implica grande acúmulo de bens e serviços de um lado à custa de clamorosa pobreza e miséria de outro. Os dados falam por si: há um bilhão de pessoas que vive no limite da sobrevivência com apenas um dólar ao dia. E há, 2,6 bilhões (40% da humanidade) que vive com menos de dois dólares diários. As consequências são perversas. Basta citar um fato: contam-se entre 350-500 milhões de casos de malária com um milhão de vítimas anuais, evitáveis.

Essa anti-realidade foi por muito tempo mantida invisível para ocultar o fracasso do modelo econômico capitalista feito para criar riqueza para poucos e não bem-estar para a humanidade.

A segunda injustiça, a ecológica está ligada à primeira. A devastação da natureza e o atual aquecimento global afetam todos os países, não respeitando os limites nacionais nem os níveis de riqueza ou de pobreza. Logicamente, os ricos têm mais condições de adaptar-se e mitigar os efeitos danosos das mudanças climáticas. Face aos eventos extremos, possuem refrigeradores ou aquecedores e podem criar defesas contra inundações que assolam regiões inteiras. Mas os pobres não têm como se defender. Sofrem os danos de um problema que não criaram. Fred Pierce, autor de "O terremoto populacional" escreveu no New Scientist de novembro de 2009: "os 500 milhões dos mais ricos (7% da população mundial) respondem por 50% das emissões de gases produtores de aquecimento, enquanto 50% dos pais mais pobres (3,4 bilhões da população) são responsáveis por apenas 7% das emissões".

Esta injustiça ecológica dificilmente pode ser tornada invisível como a outra, porque os sinais estão em todas as partes, nem pode ser resolvida só pelos ricos, pois ela é global e atinge também a eles. A solução deve nascer da colaboração de todos, de forma diferenciada: os ricos, por serem mais responsáveis no passado e no presente, devem contribuir muito mais com investimentos e com a transferência de tecnologias e os pobres têm o direito a um desenvolvimento ecologicamente sustentável, que os tire da miséria.

Seguramente, não podemos negligenciar soluções técnicas. Mas sozinhas são insuficientes, pois a solução global remete a uma questão prévia: ao paradigma de sociedade que se reflete na dificuldade de mudar estilos de vida e hábitos de consumo. Precisamos da solidariedade universal, da responsabilidade coletiva e do cuidado por tudo o que vive e existe (não somos os únicos a viver neste planeta nem a usar a biosfera). É fundamental a consciência da interdependência entre todos e da unidade Terra e humanidade. Pode-se pedir às gerações atuais que se rejam por tais valores se nunca antes foram vividos globalmente? Como operar essa mudança que deve ser urgente e rápida?

Talvez somente após uma grande catástrofe que afligiria milhões e milhões de pessoas poder-se-ia contar com esta radical mudança, até por instinto de sobrevivência. A metáfora que me ocorre é esta: nosso pais é invadido e ameaçado de destruição por alguma força externa. Diante desta iminência, todos se uniriam, para além das diferenças. Como numa economia de guerra, todos se mostrariam cooperativos e solidários, aceitariam renúncias e sacrifícios a fim de salvar a pátria e a vida. Hoje a pátria é a vida e a Terra ameaçadas. Temos que fazer tudo para salvá-las.

Leonardo Boff é autor de Opção-Terra: a solução para a Terra não cai do céu, Record (2008).

quinta-feira, 22 de abril de 2010

50 Milhões de Figurantes - Entre os quais CADEIRANTES




Fonte: MARTHA MEDEIROS


50 milhões de figurantes


Todas as manhãs, dirijo pelo mesmo trajeto e fico engarrafada numa mesma esquina, onde há uma obra atrapalhando o trânsito. Mas nada se compara com a dificuldade de uma moça que diariamente atravessa a rua bem em frente ao meu carro. Seria fácil para ela caminhar sobre a parte esburacada da obra e cruzar de uma calçada a outra enquanto o sinal não abre. Seria fácil se ela caminhasse, mas não caminha. Anda numa cadeira de rodas.

Todos os dias, eu presto atenção nela, em como maneja bem sua cadeira, em como parece estar acostumada, apesar de todo o esforço. Naturalmente, me vem à lembrança a personagem de Alline Moraes em Viver a Vida. E me pergunto: não fosse a personagem da novela, eu prestaria tanta atenção assim? Quantas cadeirantes já cruzaram meu caminho e eu não percebi?

Assistindo a uma entrevista da vereadora e psicóloga Mara Gabrilli, também cadeirante, descobri que no Brasil há cerca de 50 milhões de pessoas que possuem alguma deficiência, seja motora, auditiva, visual, mental ou mesmo as deficiências degenerativas da idade, que comprometem o ir e vir autossuficiente. Não é um milhão, nem são dois: são 50 milhões. Você tem cruzado por essas pessoas pelas ruas? Sim, todos os dias. Mas cruzar por elas não significa enxergá-las.

Não acho que as novelas precisem se engajar em causa alguma, estão aí para entreter, passar o tempo, porém, quando conseguem colocar na trama uma personagem peculiar, que não representa apenas a santinha ou a vilã clássicas, mas que foge do estereótipo, nossos olhos se abrem para uma condição que a gente se acostumou a não ver.

Ainda que a realidade da personagem da novela seja diferente da realidade da maioria dos cadeirantes (raros possuem enfermeira 24 horas, fisioterapeuta de plantão e motorista com carro adaptado), não se pode esquecer que vivemos num país em que a educação se dá mais pela TV do que pelos livros. Logo, um programa de grande audiência que atinge as classes A, B, C, até Z, contribui muito para a inclusão social daqueles que, por não protagonizarem novelas, também não eram considerados protagonistas aqui fora. Formavam um elenco de apoio, 50 milhões de figurantes.

Não é nada, não é nada, Manoel Carlos deu projeção a uma linda Luciana que saiu das passarelas para a paraplegia, com o ineditismo de a personagem ter até blog e trocar ideias com os telespectadores como se o seu drama existisse de fato. Bizarro? Cafona? Pode ser. Mas hoje vejo com mais nitidez aquela moça que todo dia atravessa a rua manejando sozinha sua cadeira de rodas às sete e meia da manhã, engolindo poeira em meio a uma obra, e penso na falta que faz um outro tipo de passarela, uma rampa ou uma calçada bem pavimentada para aqueles que, diferenças à parte, também são personagens principais.